Curiosidades

Ex-usuário de drogas, empresário denuncia em livro clínica em que foi tratado como esquizofrênico

João Vasconcellos conta ter sido fortemente dopado a ponto de ficar em estado vegetativo

 

Do R7

Ao ser internado, deram a João Vasconcellos — erradamente, como só se saberia depois — o diagnóstico de esquizofrenia-paranoideDivulgação

Um empresário denunciou em livro ter sido vítima de erro médico em uma clínica no Rio de Janeiro nos anos 90. Apesar das memórias dolorosas, João Vasconcellos decidiu escrever Pensão Margaridas para alertar as famílias de dependentes químicos. O livro (Editora Ponto Vital) conta com prefácio do escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Ivan Junqueira, falecido em 2014.

— Aos 37 anos, depois de ter vivido seis anos em estado vegetativo, dopado e em regime semelhante ao carcerário, descobri que tinha uma história singular que não poderia deixar de ser escrita, por ter sido vítima de grave erro médico, uma história que passaria a ser um alerta, além de descrever a minha trajetória de superação.

Em 1989, com 31 anos, João era dependente de cocaína e álcool foi internado pelos pais em uma clínica de desintoxicação, no Jardim Botânico, bairro da zona sul do Rio. O vício já começava a atrapalhar sua vida profissional. O que ele não podia imaginar era que ficaria dependente de drogas ainda mais pesadas.

Ao ser internado, deram a ele — erradamente, como só se saberia depois — o diagnóstico de esquizofrenia-paranoide. Logo de cara, João relata ter sido medicado com altas doses (às vezes uma caixa inteira) de Haldol (um dos primeiros remédios a serem usados para tratamento de casos psicóticos, mas com muito efeito colateral), e foi ficando tão dopado que entrou em estado considerado vegetativo.

Segundo o empresário, à época, a clínica fazia uso de tratamentos considerados polêmicos. Um deles era o chamado LSD homeopático, proibido pela Associação Brasileira de Psiquiatria.

— O pior momento foi quando a médica responsável mandou retirar todas as medicações de uma hora para a outra, ao invés de reduzir gradualmente, como deve ser feito. Comecei a ficar rígido, impregnado. Desconheço qual era o objetivo da doutora com esse procedimento. Passei vários dias nesse estado e me senti torturado.

João não entendia muito bem o que estava acontecendo, até que um dia se assustou de verdade ao ver a dona da Clínica Margaridas ser acusada pela morte de um amigo interno em uma reportagem na TV. O paciente teria tido uma overdose de remédios na clínica, mas seu ato foi considerado suicídio.

— Como eu estava preso e sem perspectivas de sair da clínica, o processo contra a dona me deu esperanças de que a instituição acabasse e eu fosse libertado, caso a médica fosse cassada, mas isso não ocorreu: ela apenas foi suspensa por um mês (…) Eu estava tão fortemente medicado que tinha dificuldades para me expressar e manifestar alguma melhora. Quando minha família insistia em querer me tirar, os médicos afirmavam que haveria riscos de suicídio, coisa que jamais cogitei.

João viveu esse pesadelo por quase três anos, de 1989 a 1992. A alta da clínica aconteceu após o dinheiro da família minguar. Como o diagnóstico era de esquizofrenia, João continuou a tomar os remédios em casa. Até que um dia, perdeu as receitas controladas ficando sem o medicamento. Dias se passaram e ele voltou a se sentir, novamente, vivo.

Sem nenhum efeito colateral, ele buscou um médico, que lhe afirmou que nunca tivera esquizofrenia. O alívio foi imenso, e ele já nem se dava mais conta de sua maior conquista: ter se livrado das drogas.

— Consegui verdadeiramente me livrar das drogas. Hoje, considero usar cocaína uma espécie de flagelo. Não sei como eu conseguia me maltratar tanto, usando algo tão tóxico. Tenho muito cuidado com a bebida. Se eu beber (coisa rara) é sempre muito pouco, um cálice de vinho ou uma tulipa de chope. Careta a gente curte muito mais… Nada como a saúde.

Foram dez anos até concluir o livro. Hoje, o empresário leva uma vida “normal”: trabalha em sua empresa, no bairro do Flamengo, e coordena, com oito funcionários, a manutenção de quase cem prédios da cidade.

E para famílias e dependentes químicos, ele deixa o alerta: “Sempre acreditar que são capazes de deixar o vício, com a consciência de que não são doentes, e sim de que estão doentes. É fundamental o discernimento na hora de escolher o médico ou a clínica.”

http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/ex-usuario-de-drogas-empresario-denuncia-em-livro-clinica-em-que-foi-tratado-como-esquizofrenico-1011201629

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